O sol brilha, os termômetros sobem e o Nordeste se prepara para o fluxo máximo de turistas. No entanto, o que deveria ser o auge da nossa economia marinha começa com um gosto amargo. Notícias recentes confirmam o que o time de ciência do Instituto Redemar Brasil e o programa OMNEPP alertam há pelo menos uma década: a qualidade das nossas praias não apenas caiu, ela despencou.
Não há surpresa, apenas a confirmação de uma tragédia anunciada. Mas agora, com o “xeque-mate” na balneabilidade, precisamos encarar as perguntas que não podem mais ser ignoradas.
O Custo Invisível do Esgoto e do Resíduo
Quando uma praia é classificada como imprópria, o impacto é uma reação em cadeia que fere desde a saúde pública até o bolso do pequeno empreendedor:
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- Saúde em Risco: Para o banhista, o contato com águas contaminadas e areias sem controle sanitário resulta em doenças gastrointestinais, dermatoses e infecções. O lazer vira um problema hospitalar.
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- Economia do Mar em Queda: O turismo é o maior indutor econômico da nossa região. Uma “notícia ruim” na Folha de S. Paulo sobre a balneabilidade afasta o turista de alto valor agregado, esvazia hotéis e silencia as barracas de praia.
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- A Cauda Longa do Prejuízo: Não é só o hotel que perde. Perde o pescador, o motorista de aplicativo, o guia de turismo e o comércio local. É um ecossistema econômico que definha junto com a qualidade da água.
Gestão de Resíduos e Saneamento: O Gargalo
O aumento populacional nas cidades costeiras, somado ao pico turístico, colapsa um sistema de saneamento que já é deficitário. O gerenciamento de resíduos sólidos falha, e o que sobra é o paliativo.
A verdade incômoda: Gastaremos fortunas de dinheiro público em monitoramento e medidas remediadoras “para inglês ver”, enquanto a solução real — o investimento pesado em saneamento básico e educação azul estruturante — segue em segundo plano. William Freitas Gestor Ambiental e Presidente do Instituto Redemar Brasil
Existe Solução a Curto Prazo?
Se você procura uma “receita de bolo”, ela não existe. Soluções mitigadoras são custosas e, muitas vezes, apenas enxugam o gelo para garantir o fluxo imediato de pessoas. Para os tomadores de decisão, o desafio é parar de reagir ao problema apenas no verão e começar a gerir o bioma marinho como o ativo mais valioso que possuímos.
Estreia da Coluna “Cotidiano”
Iniciamos hoje, logo após o solstício de verão, este espaço de reflexão. A coluna Cotidiano nasce para mostrar como o Bioma Marinho interfere em todas as áreas da vida humana. Não somos vizinhos do mar; somos parte dele. E se o mar adoece, nossa economia e nossa saúde vão pelo mesmo caminho.
É hora de decidir: queremos ser o destino paradisíaco das fotos de Instagram ou a região que negligenciou seu maior tesouro até ele se tornar um risco sanitário?
Texto: William Freitas, presidente da Redemar Brasil



