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Além dos trios elétricos: documentário Catadores de Sonhos revela o trabalho dos catadores que sustentam o Carnaval de Salvador

Enquanto os trios elétricos arrastam multidões e o Carnaval de Salvador se consolida como a maior festa popular do planeta, um outro espetáculo acontece longe dos holofotes. Nas ruas, antes, durante e depois da folia, milhares de catadores e catadoras de materiais recicláveis garantem não apenas a limpeza da cidade, mas a sustentabilidade ambiental e econômica do evento. É esse trabalho invisibilizado que o documentário Catadores de Sonhos pretende colocar no centro da narrativa.

Com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2026, o documentário Catadores de Sonhos, do cineasta OG Cerqueira, já está em fase inicial de produção e propõe uma mudança de olhar sobre o Carnaval. A obra acompanha a rotina de trabalhadores que transformam resíduos em renda, inclusão social e preservação ambiental, mostrando como o que sobra da festa se converte em sustento para milhares de famílias e em matéria-prima fundamental para a cadeia da reciclagem.

Mais do que um registro audiovisual, Catadores de Sonhos se constrói como um chamado à reflexão coletiva. O documentário se apoia em três eixos centrais. O primeiro é a governança, ao evidenciar como políticas públicas bem estruturadas podem contribuir para a superação de realidades históricas de exclusão. A narrativa apresenta experiências que demonstram o papel do poder público no fortalecimento do trabalho dos catadores, com impacto direto na melhoria das condições de trabalho, no reconhecimento profissional e na geração de renda.

Para William Freitas, presidente do Instituto Redemar Brasil, o filme nasce da necessidade de dar visibilidade a quem sustenta o Carnaval fora dos palcos. “O documentário mostra que os catadores não estão à margem da festa. Eles fazem parte da engrenagem que mantém o Carnaval funcionando, do ponto de vista ambiental, social e econômico. Dar visibilidade a esse trabalho é reconhecer a importância desses profissionais para a cidade e para o futuro da reciclagem”, afirma.

Na avaliação de Wenceslau Júnior, superintendente de Economia Solidária e Cooperativismo, o fortalecimento da atuação dos catadores passa pela consolidação de políticas públicas continuadas. “A política pública de apoio aos catadores e catadoras de materiais recicláveis no Estado da Bahia tem avançado a cada ano. Além do apoio financeiro às ações no Carnaval e no São João, há iniciativas voltadas à assistência técnica, formação, aquisição e doação de equipamentos, como prensas, balanças, carrinhos e equipamentos de proteção individual, além da entrega de galpões adequados para o trabalho. A promoção do trabalho decente e o fortalecimento da economia solidária e do cooperativismo têm sido eixos centrais dessas ações”, destaca.

O segundo eixo do documentário é o setor privado. A produção provoca empresas a assumirem seu papel na cadeia da logística reversa, ressaltando a responsabilidade compartilhada na gestão de resíduos e a necessidade de valorização da mão de obra que sustenta esse sistema. Sem os catadores, a engrenagem da reciclagem simplesmente não funciona, e o filme evidencia o impacto direto desse trabalho na economia circular.

Por fim, o eixo da comunidade convida a sociedade a enxergar além do lixo. Ao dar voz aos catadores, Catadores de Sonhos reforça a importância do respeito, da valorização e do reconhecimento social desses profissionais, fundamentais para a sustentabilidade do Carnaval e das cidades.

Catadores de Sonhos é um desdobramento da Escola de Catadores, iniciativa do Instituto Redemar Brasil, realizada em parceria com a OG Cine LAB, e conta com apoio institucional. Ao revelar o brilho que não aparece nos palcos, o documentário propõe uma nova, e urgente, perspectiva sobre o Carnaval: a de que a festa só é possível graças ao trabalho de quem transforma resíduo em dignidade, renda e preservação ambiental.

Texto: Renato Palhano

Créditos: Elson Ferreira

Créditos: Elson Ferreira

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