Notícias

Carta Aberta: O Oceano não é um Depósito de Desejos, é o Ventre da Vida

Por uma celebração onde a Ciência e a Cultura caminham juntas

O tradicional festejo de Iemanjá é, sem dúvida, uma das maiores demonstrações de força cultural e espiritual do nosso povo. No entanto, vivemos um tempo em que o oceano está exausto. Não podemos mais ignorar que a escala da nossa celebração, se não for cocriada sob a ótica da sustentabilidade, torna-se um fardo insustentável para um ecossistema que já opera no limite.

A ciência e a cultura não são antagônicas; são linguagens diferentes que buscam a mesma harmonia.

A fragilidade do ambiente marinho em 2026 nos impõe uma nova liturgia. Oferecer presentes que agridem a biodiversidade — plásticos, vidros e materiais sintéticos — é um paradoxo que precisa ser superado. Se a Rainha do Mar é a senhora das águas, a melhor forma de honrá-la é garantindo que sua casa permaneça viva e saudável.

Propomos que o conceito de Educação Azul seja o fio condutor dessa transformação. Educar para o oceano significa entender que cada fibra de nylon ou frasco de perfume lançado é um impacto de grande escala concentrado em um só dia. Precisamos transitar da contemplação passiva para o compromisso ativo.

Nossos pontos de convergência para o futuro:

  • A Substituição Necessária: É possível manter o simbolismo das oferendas utilizando materiais 100% orgânicos e biodegradáveis. A beleza do rito está na intenção, não na perenidade do objeto físico que vira lixo no fundo do mar.
  • O Pátio da Ciência: O dia 2 de fevereiro deve ser também um dia de consciência. É o palco ideal para alfabetização oceânica, onde o saber acadêmico e o saber ancestral dialogam em pé de igualdade para proteger a economia azul e a vida marinha.
  • A Responsabilidade Compartilhada: O impacto da nossa atitude deve ser medido pela herança que deixamos. Uma festa que gera toneladas de resíduos é uma festa que nega o próprio futuro da comunidade que a sustenta.

Zelar pelo mar é um ato de fé e de sobrevivência. Que possamos, juntos — lideranças religiosas, cientistas, gestores e devotos — desenhar um novo pacto. Que a nossa devoção seja a cura do oceano, e não a sua degradação.

A relação com o mar é da nossa natureza, e preservá-lo deve ser a nossa maior oração.

William Freitas Gestor Ambiental e Presidente do Instituto Redemar Brasil

Crédito @vjboca

Crédito @vjboca

Crédito @vjboca

Compartilhar:

Outras Notícias