Enquanto milhões de pessoas se preparam para o tradicional ritual de pular as sete ondas, depositando no mar seus desejos de um ano próspero, o Oceano agoniza. Durante esta única e fatídica noite, o volume de poluição nas praias brasileiras chega a quadruplicar, revelando uma face predatória das nossas celebrações.
A Falsa Sorte no Cenário de Crise Climática
Vivemos tempos de eventos climáticos extremos. Em um planeta sob pressão, sorte de verdade é não ser atingido por enchentes, secas ou calmarias térmicas avassaladoras. O mapa de risco global não poupa ninguém. Nesse contexto, de nada adianta clamar por bênçãos ao sagrado mar e, no minuto seguinte, abandoná-lo à própria sorte com garrafas plásticas, sacolas, copos descartáveis e longnecks.
A poluição por plástico aliada ao aquecimento global é uma ameaça iminente. Os recifes de corais, berços da biodiversidade marinha, correm o risco de desaparecer até 2040 devido a esse “combo” destrutivo. O primeiro princípio da Cultura Oceânica nos ensina que existe apenas um oceano global: o descarte irresponsável na beira da praia não tem destino certo e, pela sua longa estimativa de vida, levará anos trazendo “azar” e doenças a quem antes buscou renovação.
Responsabilidade Compartilhada: A Lei e o Lucro
As cidades costeiras precisam ir além da hospitalidade turística. É urgente investir em campanhas educativas e, à semelhança do que ocorre no Carnaval, estabelecer proibições rigorosas ao uso de descartáveis na faixa de areia. Não é justo que o ecossistema que nos provê subsistência, regulação climática e bem-estar receba em troca o lixo que adoece a fauna e a nós mesmos.
No campo jurídico, a Lei nº 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos)é clara sobre a logística reversa e a responsabilidade compartilhada. Fabricantes, distribuidores e comerciantes são obrigados a estruturar o retorno das embalagens pós-consumo. Se sabemos quem são os “donos” de cada lata e garrafa pet, por que ainda falhamos em fazer cumprir a lei na virada do ano?
Por uma Educação Azul com Compromisso Social
O mercado lucra com o clima quente e o aumento do fluxo no litoral, mas a conta ambiental não pode ser paga pelo Oceano. Precisamos ressignificar nosso comportamento. A Educação Azul deve ser uma prática diária para que entendamos que o Oceano pertence a todas, todos e todexs — e, por isso, tem o direito sagrado de ser preservado e respeitado.
Como aprendemos e defendemos durante o lançamento do nosso programa:
“Educação Azul sem compromisso social é apenas contemplação.”
Que este Réveillon marque não apenas a virada do calendário, mas a virada da nossa consciência. O mar nos dá a vida; que saibamos, ao menos, devolver o respeito.
William Freitas Gestor Ambiental e Presidente do Instituto Redemar Brasil


